O Dízimo e a Doutrina da Igreja

O dízimo sempre é um assunto delicado de ser discutido. Se por um lado há fiéis que reconhecem já de prontidão o dever de contribuir com sua paróquia, ajudando-a em suas atividades pastorais e obras de misericórdia, por outro temos também um certo número de pessoas que suspeitam ser essa uma forma da Igreja “explorar” os crentes, condicionando vantagens espirituais ao pagamento de determinadas quantias monetárias. Dentre esses pólos existem inúmeras visões diferentes sobre esse assunto e muitas vezes as discussões ficam acaloradas entre defensores e difamadores da prática. Dadas as divergências e opiniões por vezes pouco fundamentadas, vale entender um pouco melhor qual é a doutrina da Igreja sobre o dízimo e esclarecer as principais dúvidas que podem surgir.

  1. O que é dízimo?

Antes de explicitar propriamente a doutrina católica sobre o dízimo, é bom ter bem em mente seu sentido e sua origem, na Lei do Antigo Testamento.

A palavra “dízimo” remete à “décima parte”, pois, na Antiga Lei, a tribo de Levi, separada para dedicar-se exclusivamente às atividades do Templo e excluída da repartição das terras de Israel, precisava ser sustentada pelas outras tribos. Para que isso fosse possível, cada uma das outras 11 tribos contribuía com 10% de tudo o que produzia, de forma que nenhuma ficasse excessivamente sobrecarregada.

Hoje, porém, nós católicos chamamos de “dízimo” a contribuição recorrente – geralmente mensal – de uma quantia financeira pelos fiéis. Não existe, em nossa doutrina, nenhuma regra de porcentagem ou valor fixo com que todos os fiéis precisem contribuir – cada um deve tomar essa decisão em vista de sua condição financeira e benevolência.

  1. Pagar o dízimo é um mandamento?

Nossa santa religião nos ensina que nós cristãos temos o dever de seguir, além dos 10 mandamentos do Decálogo, também os 5 mandamentos da Igreja, em que se inclui em seu quinto artigo o dever de “Ajudar a Igreja em suas necessidades” (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2041-2043). Este mandamento, contudo, não necessariamente obriga o fiel a contribuir com a Igreja no formato de dízimo, ou sequer através de doações monetárias. Conforme explica o Catecismo, “o quinto mandamento recorda aos fiéis que eles devem ir ao encontro das necessidades materiais da Igreja, cada um conforme as próprias possibilidades”. Para além das contribuições em dinheiro, ainda hoje é bem comum que essas doações sejam feitas através de alimentos, bens ou até mesmo propriedades, dependendo da realidade e generosidade de cada fiel.

Nos tempos antigos, por exemplo, os fiéis levavam seus dons para serem repartidos entre os mais necessitados juntamente com o pão e o vinho na Eucaristia. É desta tradição que surgiu o costume da coleta da Missa. São Justino, que viveu na primeira era dos cristãos depois de Cristo, documentou:

“Os que possuem bens em abundância e aqueles que o desejam dão livremente o que lhes parece bem, e o que se recolhe é entregue àquele que preside. Este socorre os órfãos e as viúvas e os que, por motivo de doença ou qualquer outra razão, encontram-se em necessidade, assim como os encarcerados e os migrantes; numa palavra, ele socorre todos os necessitados” (S. Justino Mártir, Apologia. Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1351).

  1. Por que ser dizimista?

Se existem várias formas de cumprirmos o preceito de “prover às necessidades da Igreja” (cf. Código de Direito Canônico, cân. 222) por que então deveríamos optar por oferecer dízimos? Podemos abordar a questão da razão de ser dizimista a partir de três lentes diferentes: a da paróquia, a do fiel e a de Deus. Em cada uma delas, no entanto, nota-se a mesma bondade de Deus para conosco ao utilizar também dessa ferramenta como forma de crescermos nas virtudes, amar mais ao próximo e nos aproximarmos Dele.

Do lado da paróquia, o dízimo é de suma importância para garantir a segurança financeira e administrativa. Através das contribuições periódicas é possível manter, para além do sustento ordinário do templo (água, luz, cooperadores qualificados, limpeza, reparos periódicos), nossas diversas iniciativas de apostolado e caridade que tantas almas têm trazido a Cristo. A capacidade de fazer planos de médio e longo prazo possibilitada pelos dizimistas nos permite traçar estratégias densas, com impactos profundos e perenes, capazes de atingir públicos dos mais diversos perfis. O serviço ao próximo, exemplificado pelo próprio Jesus ao lavar os pés dos discípulos na Santa Ceia, carece de recursos financeiros para que seja feito com o merecido zelo. Em nossa paróquia temos a graça de conduzir múltiplas frentes de apoio aos necessitados (como detalhado mais adiante, na página 14), e isso não seria possível sem a contínua ajuda de nossos paroquianos.

As ofertas que fazemos são essenciais para sustentarmos a Igreja fundada por Jesus Cristo.

Para o fiel, a prática do dízimo é uma forma de exercer a generosidade, expandir o coração ao amor ao próximo e aumentar o desapego às coisas materiais. Uma das principais ferramentas que o demônio utiliza para a perdição das almas é o egoísmo, vício hoje tão difundido como virtude. Muitas vezes vemos o excesso de conforto material, autocuidado, diversões e prazeres sendo tratado como algo positivo, benéfico para a nossa saúde e importante para alcançarmos a felicidade. De fato esses dons não são ruins quando utilizados de forma temperada. Entretanto, por essa ser cada vez menos a realidade, eles se tornam algo que pode nos afastar de Deus. O dízimo, nesse sentido, vem como um contraponto, fazendo com que o fiel saia de si mesmo e vá ao encontro de seu irmão.

Além disso, este comprometimento mensal ajuda a construir virtudes naquele que o faz: a diligência no trabalho, a humildade para com os mais necessitados e a possibilidade de mortificação são alguns dos exemplos que podem ser facilmente mencionados. Fora isso, também contribui para adicionar um valor sobrenatural às atividades laborais ao incluir como uma de suas finalidades a manutenção de sua paróquia e suas ações pastorais. Para todos que visam santificar o seu cotidiano, oferecer-se a Deus ou expandir sua alma ao Espírito Santo, esta prática pode ser uma excelente ferramenta para fazê-lo.

Por fim, é importante entendermos também a visão de Deus sobre o dízimo. Aqui pode surgir um paradoxo: se Deus é onipotente e todo- -poderoso, por que precisaria de nossa caridade, de nosso dízimo? Não deveríamos ser nós a pedir favores e graças, e não o contrário?

A verdade é que de fato Deus não precisa de nosso dízimo para existir. Não há nada que nós possamos fazer que “mude” a vontade do Senhor, que aumente a sua grandeza ou que o edifique ainda mais frente ao que já O é. Entretanto, as ofertas que fazemos são essenciais para sustentarmos a Igreja fundada por Jesus Cristo pois, assim como nós, a Igreja possui tanto uma dimensão espiritual quanto uma dimensão material, e carece de recursos financeiros para se manter operante em sua missão de santificação da humanidade.

Sendo assim, por estruturar nossa salvação dessa forma, vemos que Deus escolhe, por sua livre liberalidade, “precisar” de nós. Ao fazer o mundo, Ele preparou, em vista de certos efeitos, as causas que os devem produzir e, em vista de certos fins, os meios pelos quais são obtidos. Não há, por exemplo, uma colheita sem o semeio, uma vitória sem uma batalha, um conhecimento sem um estudo. Do mesmo modo também, não há salvação sem a Igreja e uma Igreja sem a cooperação de seus fiéis. Isso está estreitamente ligado com a liberdade que Deus nos dá: por precisarmos aceitar livremente a fé, precisamos voluntariamente nos doar e fazer sacrifícios através de nossas obras por ela.

Podemos apenas imaginar quantas são as formas diferentes que a Santíssima Trindade poderia elaborar para a nossa redenção. Entretanto, em Sua infinita sabedoria, optou por nos enviar o próprio Filho e, a partir Dele, edificar uma Igreja para guiar todos os que têm fé à vida eterna. Se nesse plano Deus quis necessitar de nossa colaboração, podemos apenas concluir que essa é a forma mais perfeita para que ela seja realizada. Daí a importância de sermos colaboradores de Deus, de nossas paróquias e, em última instância, de nós mesmos.

Por Luiz Alberto Americano


Você quer saber mais sobre algum ensinamento da Igreja?
Envie suas dúvidas para informativo@nossasenhoradobrasil.com

Comece a digitar e pressione Enter para pesquisar