“Desprendimento. Como custa! … Quem me dera não estar atado senão por três pregos, nem ter outra sensação em minha carne que a cruz.”
S. Josemaria Escrivá, Caminho, n. 151
Não é difícil encontrar pessoas de boa intenção que dedicam esforços a obras de misericórdia de maneira a amenizar o sofrimento daqueles que mais necessitam. Ainda que inegável o valor de tais ações, não são suficientes para atingir o ideal de quem que busca viver o Evangelho em sua plenitude.
É necessário reconhecer que a caridade é apenas um lado da moeda, complementada pela santa pobreza, sem a qual se perde grande parte das riquezas do Cristo. Com efeito, o apego aos bens do mundo, inclusive às pessoas próximas e a si mesmo, é contrário aos ensinamentos de Nosso Senhor, que assim diz: “Se alguém vem a mim, mas não se desprende do pai, da mãe, da mulher e filhos, de irmãos e irmãs, e até de sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,26).
O desprendimento exigido é radical e abrange todas as esferas da vida, fato reiteradamente expresso nas Sagradas Escrituras e na vida dos santos elevados à glória dos altares. Em outra passagem, o evangelista São Mateus narra que: “Um outro dos discípulos disse a Jesus: ‘Senhor, permite-me que primeiro eu vá enterrar meu pai’, Jesus, porém, lhe respondeu: ‘Segue-me, e deixa que os mortos enterrem os seus mortos’” (Mt. 8, 21-22).
Isso não quer dizer que é ilícito amar os pais, a esposa, os filhos, amigos, a casa, o trabalho, e todas as demais coisas da terra. Na verdade, é através delas que ocorre o encontro cotidiano com Cristo, ao passo que “qualquer modo de evasão das honestas realidades diárias é para os homens e mulheres do mundo coisa oposta à vontade de Deus” (S. Josemaria Escrivá, Amar o Mundo Apaixonadamente). Todavia, é preciso buscar primeiro o Reino de Deus e estar dispostos a renunciar a tudo, pois os bens são apenas instrumentos para servir a Deus e ir para o Céu.
Conforme destaca S. Inácio de Loyola, as “coisas sobre a face da terra são criadas para o homem, para que o ajudem a conseguir o fim para que é criado (…). Somente desejemos e escolhamos o que mais nos conduz para o fim para que somos criados” (Exercícios Espirituais, princípio e fundamento). Desse modo, todos os bens que eventualmente tenhamos somente são benéficos na medida em que nos auxiliem a aproximar da perfeição de Cristo.
Tal escolha pelos bens que a traça e a ferrugem não destroem (cf. Mt 6, 19-20) pode ser vista, por exemplo, na vida de S. Luís Gonzaga – nobre e príncipe-herdeiro nascido no norte da Itália que, contra a vontade do pai que desejava a carreira militar para o filho, largou tudo para ingressar no noviciado na então recém-fundada e pobre Companhia de Jesus. Padroeiro dos jovens e mártir da caridade, faleceu aos 23 anos, antes de ser ordenado sacerdote, vítima de moléstia contraída das pessoas que havia socorrido durante um surto de peste.
A história é repleta de santos que viveram o desapego, não obstante ocupassem cargos de prestígio e possuíssem grandes riquezas materiais. Essa situação pode ser vista no testemunho de S. Henrique, Imperador do Sacro Império Romano Germânico, que assim exortou seus súditos em carta: “As determinações salutares da Palavra Sagrada nos ensinam e advertem que, abandonando os bens temporais e rejeitando as vantagens terrenas, tenhamos em mira alcançar as mansões eternas, que permanecem para sempre nos Céus (…). Por esta razão, não fechando os ouvidos aos mandamentos do Senhor e prestando obediência aos conselhos divinos, desejamos colocar desde já, no céu, os tesouros que recebemos da riqueza e da generosidade de Deus” (MGH, Scriptores 4, 792-799; 2ª leitura do Ofício das Leituras da Memória de Santo Henrique). Em conjunto com sua esposa, S. Cunegundes, promoveu a atividade missionária, fundou vários bispados e dotou as igrejas com generosas doações. Após a morte do marido, Cunegundes abdicou do trono e da fortuna, foi morar num mosteiro, vestindo hábito pobre e obedecendo às superioras.
Outro notável exemplo é S. Luís IX, Rei da França, famoso pela especial característica de além de pai de família, exercer a paternidade sobre seu povo, a quem governava não pela violência, mas sim por sábios conselhos. Dentro dessa realidade estava a promoção do bem espiritual do reino, sempre destacando o dever de obediência à Igreja e ao Sumo Pontífice, porquanto o verdadeiro rei era Jesus. Auxiliou na difusão das recém-fundadas ordens mendicantes franciscana e dominicana, recebendo em sua mesa S. Boaventura e S. Tomás. Ainda, não mediu esforços para trazer a Paris as relíquias da Coroa de Espinhos, tendo construído para abrigá-las a belíssima Sainte Chapelle.
Ademais, é imperioso destacar S. Francisco de Assis, cujo amor não era voltado apenas aos pobres, mas sobretudo à pobreza. Nas palavras de Tomás de Celano, contemporâneo do santo: “por isso, vivia contente e seguro, por isso podia correr diligente, porque desembaraçado de tudo; por isso se sentia feliz, porque definitivamente trocadas as riquezas perecíveis por um bem mil vezes maior”. Nessa biografia, escrita a pedido do Papa Gregório IX logo após a morte do Poverello, são narrados acontecimentos em louvor da pobreza que hoje seriam taxados de demasiadamente severos. Dentre eles, há relatos da mais profunda abjeção ao dinheiro e “recomendava aos seus que o evitassem como ao demônio em pessoa”.
“As coisas sobre a face da terra são criadas para o homem, para que o ajudem a conseguir o fim para que é criado”
Assim, a vida dos santos revela uma profunda confiança na providência divina, uma vez que Deus retribui com generosidade os frutos do amor, pois “há um contrato entre o mundo e os irmãos: estes devem ao mundo o bom exemplo; o mundo deve-lhes a eles o necessário sustento”. Inúmeros exemplos de desapego poderiam ser citados, como, em terras brasileiras, S. José de Anchieta, que caminhava por dias descalço, com os pés sangrando, para confessar uma única pessoa. De fato, toda a história da salvação demonstra uma série de homens e mulheres que viveram plenamente as duas faces dessa realidade: a caridade e o desprendimento.
Convém citar, enfim, a Sagrada Família de Nazaré, o ideal por excelência das virtudes cristãs. No episódio da Visitação, Nossa Senhora se dirige apressadamente ao encontro de sua prima S. Isabel e por lá permanece durante 3 meses, mesmo estando grávida e enfrentando as dificuldades da viagem e a distância de seu lar. Adiante, o presépio demonstra que para Deus não foi preciso sequer um lugar na hospedaria para que assumisse a natureza humana e cumprisse com o plano da redenção. Em seguida, deixam tudo para trás e se exilam no Egito devido à perseguição de Herodes. Por fim, na Paixão, Nosso Senhor é despojado inclusive de suas vestes.
Verifica-se que a perfeição cristã passa necessariamente pela prática da caridade e pelo desapego das coisas do mundo, dentre as quais a segurança dos bens materiais. Nesse sentido, uma forma de cultivar o desprendimento e contribuir para o justo sustento e manutenção das obras de misericórdia da Paróquia é pelo dízimo, meio eficaz para imitar com maior fidelidade a vida de Cristo e dos santos.
Sagrada Família, rogai por nós.
Santo Henrique e Santa Cunegundes, rogai por nós.
São Luís Gonzaga e São Luís IX, rogai por nós.
São Francisco e Santa Clara de Assis, rogai por nós.
São José de Anchieta e São Josemaria Escrivá, rogai por nós.
Santa Catarina Labouré e Santa Tereza de Calcutá, rogai por nós.
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