Ao celebrarmos solenemente nossa padroeira, recordemos os principais passos de sua história
A devoção a Nossa Senhora do Brasil nasce de uma narrativa cativante, permeada por personagens célebres e heróis anônimos, que nos transmite valiosos ensinamentos acerca da Providência e do chamado de todos os povos à santidade.
De início, a tradição conta que a imagem, originalmente conhecida como Nossa Senhora dos Divinos Corações, foi encomendada, em Pernambuco, por São José de Anchieta (1534-1597) a um índio artesão, que esculpiu a Virgem com traços indígenas e o Menino Jesus com traços mestiços.
Após adquirir certa fama de milagrosa entre os indígenas, a imagem desaparece durante as incursões de holandeses calvinistas no Nordeste, cuja ocupação em Pernambuco perdurou até 1654. Nesse período, o território foi alvo também de franceses, que muito dificultavam a propagação da fé católica e a atuação das ordens religiosas na região.
A imagem reaparece apenas com os Frades Capuchinhos, que a entronizam na igreja de Nossa Senhora da Penha, no Recife. Além disso, foi também reconhecida como padroeira da recém fundada Prefeitura Apostólica de Pernambuco, cuja criação ocorreu no ano de 1725. Em decorrência de infortúnios que assolavam novamente a terra pernambucana, dessa vez devido uma série de tumultos e profanações que ocorreram em 1828, o Frei Joaquim d’Afragola, fervoroso devoto da imagem, secretamente a envia para Nápoles, na Itália, com destino ao seu convento de origem.
Todavia, os frades napolitanos não tinham conhecimento do conteúdo da pesada caixa que lhes fora destinada, e por esse motivo ela permaneceu esquecida por muito tempo na alfândega devido à falta de recursos para pagar os respectivos impostos. Curiosos, os próprios guardas abriram a encomenda e, impressionados com o que haviam encontrado, arcaram com os custos para liberação.
Adiante, os capuchinhos instalaram a imagem no convento de Santo Efrém, onde, exposta para veneração dos fiéis, passou a ser chamada de Madonna del Brasile, isto é, Nossa Senhora do Brasil, devido à origem e traços marcadamente brasileiros. Já se tinha notícia de vários milagres atribuídos pelo povo napolitano à imagem quando um acontecimento inexplicável ocorreu: sobreviveu intacta a um incêndio que destruiu a igreja de Santo Efrém, na madrugada de 22 de fevereiro de 1840.
Os prodígios do episódio se espalharam pela Itália, tornando a imagem famosa e, devidamente reconstruída, a igreja passou a ser destino de peregrinações. A devoção se espalhou ao mesmo tempo em que aumentava o número de milagres relatados, até que a própria Santa Sé recomendou a coroação da Santa com o título de Nossa Senhora do Brasil.
Apesar da fama na Itália, a imagem e a devoção eram naquela época completamente desconhecidas dos brasileiros – sendo ainda hoje frequentemente confundida com Nossa Senhora Aparecida. A primeira igreja consagrada a Nossa Senhora do Brasil no país foi inaugurada no Rio de Janeiro em 1933, e, posteriormente, nossa querida Paróquia foi criada por D. José Gaspar, então arcebispo de São Paulo, em 1940, iniciando-se as obras do templo dois anos depois.
É possível traçar um paralelo dessa história com a da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, pois ambas permaneceram anônimas, revelando-se somente depois de ficarem esquecidas, uma no leito do rio Paraíba do Sul, e outra dentro de uma caixa na alfândega de Nápoles.
Existem pontos de similaridade inclusive com as devoções às diversas aparições de Nossa Senhora, as quais, assim como as obras divinas, costumam iniciar na humildade do silêncio e da pobreza, para depois crescerem e se tornarem gloriosas. Assim, a Santíssima Virgem nos ensina que as grandes obras requerem um período de recolhimento e preparação para que os frutos do árduo trabalho sejam visíveis, conforme a história de nossa padroeira, que, silenciosa aos olhos do mundo, tornou-se depois poderoso instrumento de propagação da fé e auxílio aos devotos que se recomendam à sua intercessão.
Do mesmo modo, nosso Brasil, desde o princípio intitulado Terra de Santa Cruz, é chamado a cumprir a importante missão de levar Nossa Senhora ao mundo inteiro, assim como outrora ocorreu com a ‘exportação’ da Madonna del Brasile à Itália. Embora frequentemente possamos ficar surpresos com a difusão de ideologias anticristãs em nosso país, não podemos nos esquecer que Deus nos presenteou com o amor de sua dulcíssima Mãe, carinhosamente esculpido na imagem de Nossa Senhora do Brasil, que assim foi chamada sem que os brasileiros sequer soubessem de sua existência.
As diversas devoções a Nossa Senhora nos recordam do chamado universal à santidade e da necessidade de espírito apostólico, conforme o episódio da epifania, em que Deus se manifesta a todos os povos representados nos magos vindos do oriente. Com efeito, a Virgem Maria se apresenta a cada povo com os traços que a tornam mais próxima, associando-se à própria lógica da encarnação, mediante a qual Deus se fez homem para resgatar a humanidade perdida pelo pecado.
Que a solene celebração de nossa padroeira, neste setembro, seja uma oportunidade para que saibamos extrair as riquezas espirituais que Deus busca nos comunicar com essa bela e querida devoção, intimamente relacionada com os Divinos Corações. A comemoração de Nossa Senhora do Brasil nos recorda que não há nada a temer, pois no final o Imaculado Coração da Santíssima Virgem Maria triunfará.
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