Dois santos cuja amizade irradia a santidade
Santa Filomena permaneceu desconhecida por dezessete séculos. Falecida e sepultada em Roma nos dois primeiros séculos da era cristã, foi apenas em 1802 que escavações nas catacumbas de Priscila descobriram ossos de uma menina de treze a quinze anos de idade, selados com tijolos ornados com palmas (o símbolo típico do martírio), ao lado dos quais havia um pequeno frasco contendo resíduos de sangue – tudo a indicar que se tratava de uma criança martirizada pela fé cristã, ainda nos alvores do cristianismo.
Os tijolos que lacravam sua sepultura, além dos desenhos de palmas, âncoras e flechas, continuam a inscrição “Pax tecum Filumena”, isto é, “a paz esteja contigo, Filomena”, cujo significado do nome é “querida” ou “bem-amada”. Fora disso, a história não nos deixou nenhum outro documento ou registro de quem fora aquela menina.
Ignorada pelos homens durante dezessete séculos, a Providência divina enfim revelava à humanidade a “bem-amada” Filomena, poderosa intercessora que conta com a devoção de um padre com grande fama de santidade e pároco da pequena aldeia na cidade de Ars, na França.
Sem dúvida alguma, o padre Vianney foi um dos grandes responsáveis pela devoção à jovem mártir romana desconhecida. Não se pode conceber a história deste grande santo sem o entrelaçamento de sua vida com a devoção à Santa Filomena.
E ele conta com a intercessão da “querida santinha”, “sua cônsul, sua testa de ferro, sua encarregada dos negócios junto a Deus”, como ele mesmo chamava sua amiga, em mística intimidade viva e profunda que só pode existir entre os santos.
No ano de 1815, religiosos franceses entregam a Paulina Jaricot, jovem de dezessete anos de idade, relíquias da mártir romana. Ela posteriormente confia ao jovem sacerdote uma relíquia da “bem-amada” Filomena.
Em fevereiro de 1818, o padre Vianney chegou à pequena aldeia de Ars, animado por um coração de apóstolo zeloso pelas almas de seu rebanho. Desde a sua chegada na aldeia de Ars, a reputação de santidade do padre se difunde. Peregrinos percorriam quilômetros a pé e multidões se dirigiam à sua paróquia, para venerá-lo como um santo em pessoa, fato raras vezes presenciado.
Durante trinta anos, a igreja de Ars não esteve um momento vazia. Francis Trochu, biógrafo do padre Vianney, relata um exemplo desta situação: “Sr. cura, os outros missionários correm atrás dos pecadores mesmo por terras longínquas, mas aqui os pecadores correm atrás de V. Revma”¹.
No ano de 1830, temendo que fossem atribuídos a si os inúmeros prodígios que se operavam em Ars, padre Vianney passa a atribuir a Santa Filomena as inúmeras curas, milagres e conversões realizados na santa Aldeia de Ars, conforme se extrai de uma frase colhida pelo mesmo Francis Trochu: “Há tantos santos na nossa igreja. Eu não faço milagres… Sou apenas um pobre ignorante que cuida das ovelhas: é o bom Senhor e Santa Filomena que fazem tudo isto”².
Foi no barulho dos milagres da jovem mártir que o jovem sacerdote tentava abafar o barulho que se fazia em torno de sua santidade, pois milhares de pessoas vinham à sua paróquia simplesmente para tocá-lo, confessar-se com ele ou mesmo se recomendarem às orações. Quando a devoção a Santa Filomena ganha espaço na paróquia de Ars, a santa mártir chega bem a tempo de afastar do sacerdote o louvor excessivo dos homens.
Ars se torna o centro de irradiação do culto e devoção da jovem santa para toda a França e, por conseguinte, para todo o mundo. É muito belo perceber a glória do santo sacerdote e da santa mártir crescerem lado a lado.
A partir de então, o padre Vianney dedica uma capela a Santa Filomena e orienta a muitas pessoas que o procuram a rezar a novena com o pedido de intercessão da santa mártir, sempre dizendo que ela intercede por curas, milagres e intenções dos fiéis. Neste contexto, diversos fiéis recorrem à intercessão de Santa Filomena.
Mas uma questão interessante pode ser levantada: qual seria a razão que levou o padre Vianney a cultivar uma devoção com tamanha intensidade à jovem mártir Filomena até então desconhecida? Henri Ghéon, outro biógrafo de São João Maria Vianney, ventila dois possíveis argumentos para explicar não apenas a devoção, mas a relação de grande intimidade e confidência própria dos santos³.
Santa Filomena, por um lado, realiza melhor do que ninguém o ideal da obscuridade. Nada se sabe de sua vida mortal, senão a maneira pela qual saiu dela, isto é, o martírio, permanecendo dezessete séculos totalmente oculta. São João Maria Vianney afirma que Santa Filomena mostra o caminho da santidade. Por outro lado, a devoção a Santa Filomena exige um ato de “fé cega”, pois não há prova humana e histórica dos detalhes de sua vida, a não ser seus ossos, as inscrições dos tijolos de argila e o frasco com sangue.
Desta forma, independentemente das incertezas sobre a vida de Santa Filomena, o fato do santo pároco de Ars ser um grande devoto seu é argumento sério em favor da devoção à jovem mártir, a qual operou inúmeros milagres em favor de fiéis que recorriam ao então sacerdote. Imitemos, então, o Santo Cura d’Ars, recorrendo com confiança a essa menina, “bem-amada” do Senhor.
Fernando Augusto Frank de Almeida Alves
Referências:
¹ O Santo Cura d’Ars, Líttera Maciel, 1997, p. 193.
² Sainte Philomène: Vierge et Martyre, Lyon, 1929, p. 210.
³ O Cura D’Ars, Quadrante, 2017, pp. 72-79.
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