As revelações privadas são boas e úteis quando nos aumentam nossa devoção, mas não é nelas que se apoia nossa fé
Fazendo uma pesquisa rápida na internet sobre Santa Filomena, não é difícil encontrar relatos extraordinários sobre sua vida e seu martírio. Por outro lado, é fácil também encontrar quem aponte aparentes fragilidades históricas nestes relatos, e assim questione a própria credibilidade desta devoção. O que podemos pensar sobre isso?
Revelações Privadas sobre Santa Filomena
Quando nos deparamos com a história da vida de Santa Filomena, percebemos que pouca coisa é clara sobre quem de fato ela foi, porque nada consta a seu respeito no Martirológio Romano.¹ A grande fonte que nos ajuda a “localizá-la” historicamente é o conjunto de inscrições nos tijolos que recobriam sua sepultura. Nesses três tijolos, consta o desenho de uma palma (símbolo cristão para o martírio) e a frase Pax tecum, Filumena – isto é, A paz esteja contigo, Filomena. Pelo fato de sua sepultura estar localizada nas catacumbas de Priscila, e de ali ter sido encontrada também uma ampola de vidro com resíduos de sangue, os arqueólogos podem estimar que Filomena tenha sido martirizada nos primeiros séculos do cristianismo – como de fato se afirma nas revelações privadas a seguir. No entanto, esses elementos não são suficientes para estabelecermos com segurança uma biografia.
Considerando que há tão poucas informações a respeito desta santa, como sua devoção foi difundida nos últimos tempos, especialmente do século XIX para cá? Uma das figuras mais ilustres a serem devotas da santa mártir foi o padroeiro dos sacerdotes, São João Maria Vianney (Cura D’Ars). Mas neste artigo gostaríamos de abordar um acontecimento bastante particular, ligado a esta devoção: as supostas
revelações privadas de uma religiosa de Nápoles, chamada Madre Maria Luísa de Jesus, que fundara uma congregação de religiosas sob o título Ordem das Oblatas de Nossa Senhora das Dores.
A primeira dessas supostas revelações aconteceu quando a religiosa rezava diante de uma imagem da santa e, subitamente, uma voz veio da imagem dizendo à irmã que o seu martírio ocorrera a 10 de agosto. Quando seu diretor espiritual e o Pe. Francisco de Lucia[1] souberam disso, pediram a ela que obtivesse mais informações para discernirem a respeito da origem de tais visões e, possivelmente, agregar à biografia da santa. Assim a irmã o fez e anotou tudo a próprio punho e entregou a ambos. O que chegou para nós a este respeito foram os escritos publicados pelo Padre.²
Segundo essas revelações, Filomena era de origem grega, de pais pagãos, mas convertidos ao cristianismo pouco antes de seu nascimento. Fora prometida em casamento ao imperador Diocleciano como forma de apaziguar as perseguições aos cristãos, mas não aceitou, porque, ainda que jovem, fizera um voto de virgindade. Por isso, o imperador mandou prendê-la e, vendo sua insistência, mandou executá-la de diversas formas, mas Deus milagrosamente impediu, até que em 10 de agosto de fato se consumou o seu martírio.
Os tipos de Revelação
Ao nos depararmos com tais histórias sobre revelações privadas, podemos nos indagar, primeiramente, se são verdadeiras e, também, se somos obrigados a acreditar nelas. Inicialmente, nos recordemos que na carta aos Hebreus se diz que, ao longo da História da Salvação, Deus falou de maneiras à humanidade até a vinda de Seu Filho ao mundo, quando encerrou tudo quanto havia de nos revelar (cf. Hb 1, 1-3). No entanto, ele continua, como este trecho bem nos recorda, a criação com sua palavra, então ela ainda ressoa em nossas vidas e em nosso contexto histórico. Como isso, portanto, se aplica a nós?
Em primeiro lugar, Deus se revelou à humanidade de diversas maneiras ao longo da História: patriarcas, juízes, reis e profetas para o Antigo Testamento; e o seu próprio Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, e os Apóstolos para o Novo. Após a Ascensão do Senhor e a vinda do Espírito Santo em Pentecostes, deu-se início à Igreja dos tempos apostólicos. Nela temos parte fundamental de aspectos da Revelação, dentre os quais a escrita de todos os textos do Novo Testamento. Portanto, a Revelação Pública foi encerrada por completo com o fim da era apostólica, ou seja, com a morte do último apóstolo. Por isso, é ela a única revelação em que os fiéis estão obrigados a ter fé. No entanto, como nos aponta o Catecismo da Igreja Católica no seu número 66, não podemos compreendê-la toda de uma vez, por isso ela precisa ser captada de maneira gradual ao longo dos séculos – e este é o papel do Magistério, através dos sucessores dos apóstolos, os bispos, e pela ação do Espírito Santo.
Em seguida, temos então o que chamamos de revelações privadas, as quais a Igreja aceita após um meticuloso discernimento pelo Magistério, mas, por serem posteriores aos tempos apostólicos, não pertencem ao Depósito da Fé, isto é, o conteúdo ao qual os fiéis estão obrigados a aderir pela sua profissão de fé batismal. Por isso, nenhum fiel está obrigado a crer nelas, mas os que optam por tal adesão devem fazê-lo de maneira a viver melhor a Revelação definitiva de Cristo Jesus, não de maneira ideológica ou de forma a se afastar da fé ou da Igreja.
Por isso, a Igreja é muito cuidadosa em relação ao discernimento sobre as tais revelações, porque não podem estar em desacordo com a Revelação Pública, tentando corrigi-la ou torná-la caduca. Assim, ao longo dos séculos, mas especialmente a partir da segunda metade do século XX, os papas e a Santa Sé passaram a definir diretrizes e processos para aprovar ou não as revelações privadas³. Tal aprovação, quando concedida, não tem por significado atestar a verdadeira sobrenaturalidade dos eventos, mas sim que nada há ali que vá sem sentido contrário à Fé e aos bons costumes (nihil obstat).
Devoção a Santa Filomena, independentemente das revelações
Se acreditaremos ou não nas revelações da Irmã Maria Luísa de Jesus, cabe a cada um decidi-lo em consciência, segundo formar seu convencimento pelos elementos e argumentos históricos. Nada disso impede, no entanto, que sejamos devotos de Santa Filomena, apoiados no testemunho dos santos, nas abundantes graças alcançadas sob sua invocação, e na compatibilidade de seu culto com a doutrina da fé.
Frei Gregório-Henrique Pinho Chiozzotto, OP
Referências:
¹ Este padre foi o responsável por obter as relíquias de Santa Filomena no Vaticano, e levá-las à sua paróquia em Mugnano, onde até hoje são veneradas. Também foi o primeiro grande propagador da devoção, escrevendo livros a respeito da santa.
² Para o texto integral das revelações, conforme publicado pelo Pe. De Lucia, bem como uma avaliação bastante minuciosa e equilibrada de sua confiabilidade histórica, cf. a mencionada obra de Francis Trochu, Sainte Philomène: Vierge et Martyre, pp. 267-283.
³ Em 17 de maio passado, inclusive, o Dicastério para a Doutrina da Fé compilou as Normas para proceder no discernimento de presumidos fenômenos sobrenaturais. Disponível em < https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_ddf_doc_20240517_norme-fenomeni-soprannaturali_po.html >.
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