Santa Filomena e a santidade escondida aos olhos do mundo

O exemplo da pequena mártir de Cristo, conhecida somente por Deus durante quase dois milênios até sua morte, nos recorda que a santidade está ao alcance de todos

Em setembro de 2018, Mons. Fernando Ocáriz, Prelado do Opus Dei, concedeu uma entrevista ao jornalista Francisco Ognibene, do jornal italiano Avvenire, cujo título foi “A santidade é o caminho para ser feliz”.

Entre as perguntas, o jornalista questionou qual significado teve para Mons. Ocáriz a exortação apostólica do Papa Francisco Gaudete et Exsultate, “sobre o chamado à santidade no mundo atual”, que em muitos pontos lembrava de perto os ensinamentos de São Josemaria Escrivá.

“A chamada universal à santidade”, respondeu Mons. Ocáriz, “é o fundamento dos ensinamentos do fundador do Opus Dei. Ele sempre insistia que a santidade não é algo para os privilegiados: ‘O Senhor chama a todos, de todos espera Amor: de todos, onde quer que estejam; de todos, seja qual for o seu estado, a sua profissão ou ofício’. Deus chama à santidade o professor de ensino médio, o artista, o empresário, o cozinheiro, o agricultor, a quem se ocupa das tarefas domésticas, o jornalista, o atleta, aquele que sofre o drama do desemprego…”

Já em vida, continua Mons. Ocáriz, São Josemaria “teve a grande alegria de ver como o Concílio Vaticano II confirmou e proclamou essa realidade: que a santidade é para todos. Portanto, compreende-se que, ao ler a Gaudete et Exsultate, eu imediatamente pensasse na alegria que São Josemaria teria experimentado, vendo esta nova expressão da mensagem da chamada universal à santidade, nas palavras do Papa Francisco”.

Interrogado ainda sobre o que mais o impressionara no documento, Mons. Ocáriz aponta que “o Papa Francisco apresenta as bem-aventuranças como a carteira de identidade daqueles que buscam a santidade na vida cotidiana. É um caminho que, às vezes, requer ir contra a corrente, mas no final, precisamente, é bem-aventurança, ou seja, felicidade. É muito importante mostrar, com o exemplo, que viver como cristãos é também algo que humanamente já compensa nesta terra, apesar das dificuldades que todos temos que suportar. O caminho das bem-aventuranças é também um caminho de felicidade para nós e para os outros. Pareceu-me muito bonita a insistência do Papa, ao longo de toda a exortação, em fundamentar a santidade nos pequenos gestos, algo muito característico de São Josemaria, que no seu livro Caminho escreve: ‘Não reparaste em que ‘ninharias’ está o amor humano? – Pois também em ‘ninharias’ está o Amor divino’”.

A santidade é o rosto mais belo da Igreja”, escreve o Papa Francisco na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate.

Às vezes, Deus suscita santos cuja vida na terra é farta de documentação histórica, como aconteceu com São Josemaria Escrivá, Madre Teresa de Calcutá, São João Paulo II e, mais recentemente, Carlo Acutis. São os santos que, com o exemplo de sua conduta, nos ensinam de forma prática e concreta como portar-se nas diversas situações da vida. Em outras ocasiões, a vida dos santos fica como que velada ou mesmo totalmente oculta aos olhos do mundo – mas nem por isso tem menos valor aos olhos de Deus. Este é o caso de Santa Filomena.

Santa Filomena viveu nos primeiros séculos do cristianismo e foi martirizada quando contava com apenas treze ou catorze anos de idade. Porém, ela ficou completamente desconhecida do mundo por quase dois milênios, até o achado de suas relíquias, em 25 de maio de 1802, durante as escavações na Catacumba de Santa Priscila, na Via Salária, em Roma.

As relíquias foram, na sequência, transferidas para Mugnano del Cardinale, na província de Avelino, a pedido do pároco local, Pe. Francisco de Lucia, onde se encontram até hoje. Foi exatamente este sacerdote que narrou os primeiros milagres realizados ali pela Santa.

Da época do descobrimento das relíquias até hoje, infelizmente não foram encontrados outros documentos históricos que trouxessem mais informações sobre a vida de Santa Filomena. Por outro lado, é interessante recordar como Cristo nos ensina, muitas vezes, por intermédio de seus discípulos. Basta pensarmos no papel reservado a Ananias para a conversão de São Paulo. Também no caso de Santa Filomena, novamente temos o testemunho favorável dos amigos mais próximos de Cristo, os santos. O Santo Cura d’Ars, padroeiro dos sacerdotes, registra que recebeu a graça de curas inexplicáveis e, de maneira afetuosa, a chamava de Santinha”. Também São Pio de Pietrelcina lhe tinha, desde criança, uma especial devoção. Ele a chamava “princesinha do Paraíso” e, a quem ousava colocar em discussão a sua existência, ele respondia que suas dúvidas eram fruto do demônio, e repetia: “Pode ser que não se chamava Filomena! Mas, esta Santa fez muitos milagres e não foi seu nome a realizá-los”.

Na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate o Papa Francisco nos diz: “Os santos, que já chegaram à presença de Deus, mantêm conosco laços de amor e comunhão. Atesta-o o livro do Apocalipse, quando fala dos mártires intercessores: ‘Vi debaixo do altar aqueles que tinham sido imolados por causa da palavra de Deus e do testemunho que tinham dado’”. Embora não saibamos muito sobre Santa Filomena, sabemos que foi martirizado – como indicam sua sepultura nas Catacumbas de Santa Priscila, ornada com a palma do martírio, e acompanhada de uma pequena ampola contendo sangue.

O Papa Bento XVI, numa homilia no início solene do de seu Ministério Petrino, 24 de abril de 2005, nos ensina: “Podemos dizer que ‘somos circundados, conduzidos e guiados pelos amigos de Deus. […] Não devo carregar sozinho o que, na realidade, nunca poderia carregar sozinho. Os numerosos santos de Deus protegem-me, amparam-me e guiam-me”. Logo, não devemos esquecer que vivemos numa comunhão de santos. Alguns já conhecidos e levados aos altares pela Igreja Católica. Outros, a exemplo de Santa Filomena, Deus pode suscitar ao conhecimento do mundo a qualquer momento.

Que Santa Filomena, protetora dos aflitos e dos jovens esposos; que muitas vezes, proporcionou a alegria da maternidade a mães estéreis, como nos ensina a Santa Madre Igreja Católica, vele solicita por todos aqueles que à sua intercessão recorram.

Alecsandro A. de Souza 


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