Transfiguração: um pedaço do céu na terra
No dia 6 de agosto, a Igreja Católica celebra a festa da Transfiguração recordando a passagem contida no Evangelho em que Jesus se retira ao Monte Tabor com os apóstolos João, Pedro e Tiago e lhes mostra um momento de glória divina da Ressurreição. Este episódio bíblico está descrito nos evangelhos sinóticos (Evangelho de São Mateus, 17, 1-9; São Marcos 9, 2-10 e São Lucas 9, 28-36) e também na segunda Carta de São Pedro (1, 16-18).
Jesus foi transfigurado diante dos três discípulos, de sorte que seu rosto e suas roupas se tornaram brilhantes e resplandecentes de brancura. Moisés e Elias, representantes da Lei e dos Profetas da Antiga Aliança respectivamente, conversavam com Jesus. Pedro, então, disse-lhe: “Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra par Elias.” (Mt, 17, 4).
No Antigo Testamento, o profeta Daniel relata uma visão noturna, que pode ser uma chave de leitura para melhor compreensão do significado da Transfiguração de Jesus. Durante o sonho, Daniel menciona um ancião de “roupas brancas como a neve” e do cabelo “branco como a da lã” (Dn, 7,9). Estas características descrevem o ancião de muitos anos que se senta em seu trono. Narra ainda o profeta que viu “um ser, semelhante ao filho do homem, vir sobre as nuvens do céu, dirigiu-se para o lado do ancião, diante de quem foi conduzido” (Dn, 7,13). Ao filho do homem foram dados império, glória e realeza, de modo que seu domínio tem caráter eterno e nunca cessará.
A profecia de Daniel permite atribuir a expressão “filho do homem” como uma alusão a Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Jesus se valeu da expressão “filho do homem” momentos antes de sua paixão e morte na cruz, pois Ele foi levado diante de Caifás, indagando-o: “Por Deus vivo, conjuro-te que nos digas se és o Cristo, o Filho de Deus?” Jesus respondeu: “Sim. Além disso, eu vos declaro que vereis doravante o Filho do homem sentar-se à direita do Todo-poderoso, e voltar sobre as nuvens do céu.” Em razão do conteúdo do depoimento, Caifás rasgou as próprias vestes, após o que foi exigida a morte de Jesus (Evangelho de São Mateus, 26, 64-68).
De acordo com a tradição, a Transfiguração ocorreu 40 dias antes da crucificação. O episódio deve ser compreendido à luz de outro episódio ocorrido 6 dias antes da cena descrita no monte Tabor, quando Jesus revela aos seus discípulos que em Jerusalém deveria “padecer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas, e morrer, mas ressuscitar três dias depois” (Evangelho de São Marcos, 8, 31). O anúncio da morte de Jesus deixa os discípulos e Pedro receosos e preocupados, pois eles não aceitavam a ideia de que Jesus pudesse ser rejeitado pelos chefes do povo e depois morrer. Os discípulos externavam uma preocupação de natureza mundana com o sofrimento e a morte anunciada pelo próprio Mestre.
Segundo o Papa Francisco, “Com efeito, eles esperavam um Messias poderoso, forte e dominador; ao contrário, Jesus apresenta-se humilde e manso, Servo de Deus e dos homens, que deverá oferecer a sua vida em sacrifício, passando através do caminho da perseguição, do sofrimento e da morte. Mas como poder seguir um Mestre e Messias, cuja vicissitude terrena se teria concluído daquele modo? Assim pensavam eles.”.
Neste sentido, Jesus se utiliza do evento ocorrido no monte Tabor como uma forma de “pedagogia”, de preparação dos discípulos para que compreendam o verdadeiro significado de que a morte de cruz é o caminho pelo qual Deus-Pai fará chegar à glória o seu Filho tão amado, por meio de sua ressurreição esplendorosa, antes precedida do sofrimento da morte injusta na cruz.
Cristo revela no alto do monte Tabor sua proximidade aos três discípulos, elevando a coragem e suporte na fé para segui-Lo, mesmo diante das dificuldades que surgirão nesta caminhada. O Papa Francisco afirma que “a Transfiguração de Cristo indica-nos a perspectiva cristã do sofrimento. O sofrimento não é sadomasoquismo: ele é uma passagem necessária, mas transitória. O ponto de chegada para o qual somos chamados é luminoso como o rosto de Cristo transfigurado: n’Ele encontram-se a salvação, a bem-aventurança, a luz, o amor ilimitado de Deus. Mostrando assim a sua glória, Jesus assegura-nos que a cruz, as provações e as dificuldades com as quais nos debatemos têm a sua solução e superação na Páscoa.”
Os discípulos testemunharam a manifestação divina de Deus no rosto de Cristo. No monte Tabor, a Transfiguração representa a convergência dos ícones da Antiga e da Nova Aliança na figura central do Cristo, estando presente aquela mesma voz de Deus-Pai que se manifestou no batismo de Cristo nas águas do rio Jordão e que diz “Eis meu Filho amado, em quem pus toda minha afeição; ouvi-o”. A presença do Deus-Pai que testemunhou a resplandescência de Jesus se faz presente na nuvem sagrada que O cobre no fulgor de sua glória.
São Tomás de Aquino pontua que “A Trindade inteira apareceu: o Pai, na voz; o Filho, no homem; o Espírito, na nuvem clara”. Cristo reveste a humanidade de sua glória na montanha, cuja simbologia tem importância por remeter a outro acontecimento bíblico que tem lugar no monte Horeb, onde Deus se fez conhecer a Moisés. A Transfiguração representa o desejo de Deus dialogar com o homem, tornando parte em sua vida. Este encontro pessoal exige que cada um possa “subir” o monte Tabor para permitir este encontro tão querido por Cristo, a partir do qual cada um possa desfrutar da contemplação de seus olhos transformados da visão esplendorosa testemunhada discípulos.
A bem da verdade, estes “caem com o rosto por terra (Mt, 17, 6) por não suportarem o esplendor da glória de Deus. São Lucas menciona o sono dos três discípulos quando veem Jesus em conversa com Moisés e Elias. A simbologia desta cena reflete a escuridão em que eles mergulham, mas, ao acordarem, deparam-se com Cristo envolto em sua glória radiante. Isto significa, pois, que o ato de despertar perante a luz radiante que emana de Jesus é o caminho da esperança que afasta a escuridão e o medo, de modo a refletir o caminho seguro para encontrar a verdadeira manifestação trinitária e fazê-la, como testemunho deste encontro pessoal, resplandecer em todas as circunstâncias da vida terrena, levando esta luz gloriosa a todos os confins e a todas as pessoas à nossa volta, mediante o carregamento da cruz que cada pessoa é chamada a fazê-lo.
Fernando Augusto Frank de Almeida Alves
Referências:
https://www.cnbb.org.br/transfiguracao-do-senhor/
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