Nossa Senhora de Filermo

Nossa Paróquia, com sua exuberante decoração que atrai visitantes crentes e não-crentes, pode ser considerada um verdadeiro “catecismo em três dimensões”: a sua catolicidade (universalidade), por um lado, manifesta-se nas pinturas do teto da nave, que representam cenas da Escritura à semelhança da Capela Sistina; e sua identidade especificamente brasileira, por outro, se nota tanto nos azulejos que revestem as paredes – onde cenas próprias da vida nacional são pintadas em estilo português, em honra à nossa herança espiritual lusa – quanto na pintura do teto do presbitério, em que homens e mulheres das diversas regiões do país veneram juntos nossa Padroeira.

Menos conhecida dos visitantes (embora sempre se costume encontrar um ou outro paroquiano ali rezando diante do Santíssimo) é a Capela da Ordem de Malta, situada à direita da nave principal e cuja decoração em azulejos avermelhados a torna bastante distinta de seu entorno. Na ala direita desta Capela, há ainda uma pequena câmara que mesmo os paroquianos mais assíduos costumam ignorar: a Capela de Nossa Senhora de Filermo, patrona da Ordem, e cujo original é tradicionalmente tido como o primeiro ícone mariano da história da Igreja, e confeccionado pelo próprio S. Lucas.

Para conhecermos um pouco mais sobre a história desta devoção, relembremos brevemente a catequese católica sobre os ícones. Não foram poucos ao longo da história, afinal, os que, com base naquele “Não farás para ti escultura, nem figura alguma do que está em cima, nos céus, ou embaixo, sobre a terra, ou nas águas, debaixo da terra” (Ex 20, 4), arguiram de idólatra a nossa veneração de imagens. 

A este respeito, a Igreja constata, em primeiro lugar, que “já no Antigo Testamento Deus ordenou ou permitiu a instituição de imagens, que conduziriam simbolicamente à salvação pelo Verbo encarnado: por exemplo, a serpente de bronze, a arca da Aliança e os querubins” (Catecismo, n. 2130): ora, se a proibição das imagens se houvesse de entender de forma literal e absoluta, então o próprio Deus a teria violado, entrando em contradição consigo próprio – o que é manifestamente absurdo, pois Deus é a própria Verdade (cf. Jo 14, 6). A disciplina veterotestamentária quanto às imagens, ademais, estava baseada em que, naquela etapa da história da salvação, os israelitas ainda não haviam visto figura alguma no dia em que o Senhor lhes falou do seio do fogo em Horeb (cf. Dt 4, 15-16) – mas esta realidade mudou no instante mesmo em que “o Verbo se fez carne” (Jo 1, 14): a partir de então, o “Deus absolutamente transcendente” assumiu para Si uma natureza humana, que podia ser ouvida, vista com os olhos, e apalpada com as mãos (cf. 1 Jo 1, 1). “Encarnando, o Filho de Deus inaugurou uma nova ‘economia’ das imagens” (Catecismo, ns. 2129, 2131).

Além destes motivos baseados na economia da salvação (i.e., nas diversas etapas com que Deus foi gradualmente atuando na história), a doutrina católica sobre as imagens pode ser justificada também de um ponto de vista puramente filosófico. É que “quem venera uma imagem venera nela a pessoa representada”, e não propriamente o objeto que tem diante de si – de tal forma que “a honra prestada a uma imagem remonta ao modelo original” (Catecismo, n. 2132). Nessa perspectiva, até mesmo os nomes que damos às coisas podem ser considerados imagens, que representam (ainda que por pura convenção, e não por semelhança natural) realidades distintas de si próprios – quem escreveu o quarto Evangelho, afinal, foi o evangelista S. João, e não o nome “S. João”. Quem quiser, portanto, levar a ferro e fogo a proibição das imagens não poderá sequer usar palavras para se referir aos santos ou a Nosso Senhor – e nos perguntamos que tipo de culto ou de evangelização seria então possível…

Tendo em mente essas explicações sobre a justa veneração que nós católicos temos pelas santas imagens, podemos apreciar melhor a rica história do ícone de N. Sra. de Filermo. Sua conexão com a Ordem de Malta remonta aos anos de 1306 a 1310, quando foi descoberta pelos Cavaleiros Hospitalários no mosteiro de Filermo, em sua conquista da ilha de Rodes, atual Grécia. Havia, desde então, uma tradição no sentido de que o ícone viera da Terra Santa, e que fora originalmente pintado por volta do ano 46 d.C., pelo próprio S. Lucas Evangelista.

Em 1522, o Império Otomano invadiu a ilha de Rodes com um exército estimado entre 70 mil e 100 mil homens, contra menos de 7 mil defensores. Após seis meses de cerco e constantes combates, os Cavaleiros foram obrigados a entregar Rodes, mas puderam trazer consigo algumas relíquias, dentre elas o precioso ícone. Na sequência, a imagem foi mantida na ilha de Malta, nova sede da Ordem a partir de 1530 – até que a invasão napoleônica de 1798 a destinou a um novo exílio, desta vez sob os cuidados do Czar Paulo I da Rússia (1754-1801) e seus sucessores. 

No século XIX, o czar Nícolas I mandou fazer-se uma cópia da imagem de Filermo, para ser usada nas procissões, devido à precariedade do estado em que se encontrava o original. Esta reprodução é a que se conserva hoje na Basílica de Santa Maria dos Anjos em Assis (Itália), e que serviu de base à imagem exposta em Nossa Paróquia. 

O ícone original sofreu nova migração após a Revolução Bolchevique de 1917. Com o assassinato do czar Nícolas II e de sua família, sua mãe Maria Feodorovna (1847-1928) traz a imagem consigo ao se exilar em 1920, e a entrega ao presidente da Igreja Ortodoxa Russa no Exílio, Arcebispo Antônio Khrapovitski. Em 1932, a imagem é confiada ao rei da Iugoslávia Alexandre I (1888-1934), até que em 1941, diante da ameaça de bombardeios nazistas, ela é secretamente transferida ao mosteiro de Ostrog, em Montenegro.

O paradeiro da imagem tornou-se então desconhecido ao grande público. Nos anos 1980, uma estudiosa italiana chamada Giovannella Bertè Ferraris di Celle publicou um minucioso estudo sobre a obra perdida (La Madonna del Fileremo, 1988, Verona) em que afirmava que sua “datação remonta ao primeiro século d.C.” (p. 26). O estudo despertou novamente a atenção sobre o assunto, até que em 1993, na sequência de alguma especulação entre o meio monástico, o Museu de Arte e História de Cetinje, Montenegro trouxe a público a informação de que o famoso ícone estava em seu acervo desde 1951, quando fora secretamente transferido do Mosteiro de Ostrog por um destacamento de forças especiais iugoslavas. Em 1997, Ferraris di Celle foi autorizada a inspecionar a obra para confirmar que se tratava do ícone perdido, e a fotografá-lo, com e sem a riza de ouro que o protegia. O resultado desta inspeção foi publicado pela mesma autora como tese de doutorado, em 2001.

O ícone atualmente exposto em Cetinje é feito de têmpera em madeira, e mede 44cm x 36 cm. O rosto da Virgem Maria, que é apresentado de perfil e ligeiramente inclinado para o ombro esquerdo, é oval e tem um nariz comprido, segundo o estilo bizantino. 

Diante de tamanho percurso histórico, a pergunta que naturalmente ressoa em nosso coração é: afinal, este ícone saiu mesmo da mão do próprio S. Lucas? Seria ele uma representação fiel da aparência da Virgem Santíssima? 

Por um lado, é preciso advertir que a autenticidade de qualquer ícone, assim como uma revelação privada, não é uma verdade de fé, dogmaticamente vinculante. Tomemos como exemplo a história da impressão milagrosa do retrato da Virgem de Guadalupe no manto de S. João Diego: há inúmeros milagres e fatos inexplicáveis associados àquela imagem, mas continua sendo verdade que “seu papel não é ‘aperfeiçoar’ ou ‘completar’ a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente” (Catecismo, n. 67).

Feita esta advertência, podemos julgar a autenticidade do ícone de Filermo com base em raciocínios humanos – e, aqui sim, há motivos plausíveis para crer na origem que se lhe tradicionalmente atribui. A técnica usada (têmpera) é capaz de conservar uma imagem por dois milênios, e seu percurso histórico-geográgico está razoavelmente atestado. 

Se aprendemos com S. Tomás a rezar a Nosso Senhor Eucarístico para que no Céu o vejamos, beatos, com a face desvelada (ut Te revelata cernens facie visu sim beatus tuae gloriae), podemos também suplicar à Virgem Santíssima que a contemplação da imagem de Filermo seja-nos um antegosto da Imaculada beleza que veremos no Paraíso. 

Por Gil Pierre de Toledo Herck


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