São Gregório Magno – a verdadeira história da Igreja é a história dos santos

“Quanto a mim, não procuro ser enaltecido por palavras, mas por atos, nem quero ter maior honra à custa da honra de meus irmãos. Que fiquem longe, portanto, as palavras que inflam a vaidade e ferem a caridade”

Gregório foi o escolhido por Deus para conduzir a Igreja em tempos de grande provação, em que a península itálica era dizimada de fora para dentro por povos bárbaros e de dentro para fora pela peste bubônica. Roma estava em decadência, o Império Romano do Ocidente não mais existia, restando apenas a parte oriental – o Império Bizantino – cuja capital era Constantinopla.

Nasceu por volta de 540 na nobre e rica família Anici, filho de Santa Sílvia e Gordiano, senador e grande político romano. Homem de profunda espiritualidade, é fruto de um lar cristão, pois além de sua própria mãe ser santa, por parte de pai duas de suas tias são santas canonizadas. 

No começo de sua vida seguiu os passos do pai, tornando-se um político bem-sucedido, já que ocupou o cargo de pretor da cidade de Roma aos 30 anos de idade. Todavia, muito ocupado com assuntos seculares (“do mundo”), resolve ser monge para dedicar-se inteiramente a Deus. 

Retira-se para uma vida eremítica e, nessa época, herda uma grande fortuna em decorrência do falecimento de seu pai. Há relatos de que doou tudo aos pobres, enquanto outros afirmam que financiou a construção de sete mosteiros; seja como for, ambas as versões indicam o apreço pela virtude da caridade e o desprendimento das riquezas efêmeras.

Adiante, montou uma fraternidade monástica no Monte Célio, em Roma, onde se fixou. Nesse ínterim, ocorre um famoso episódio que remonta à origem da tradição das missas gregorianas, no qual um monge morreu em estado de graça, mas em sua vida pretérita havia cometido pecados. São Gregório teve uma visão de que se rezasse trinta missas por trinta dias seguidos aquele monge sairia do purgatório. 

Apreciava a beleza da vida contemplativa, dizendo, anos mais tarde, que: “Quando olho para minha vida anterior, suspiro como se olhasse para o litoral que me escapa”. A notoriedade de suas virtudes causou grande impacto na “paz” da vida eremítica, tendo em vista que o então Papa Pelágio II o tinha em grande apreço. 

O Pontífice pede para que fosse à Constantinopla exercer a função de apocrisário – uma espécie de embaixador, hoje se chamaria núncio apostólico – com o intuito de interceder pela Itália junto ao imperador, em decorrência do início da invasão do território pelos Lomgobardos, um povo extremamente cruel. 

Antes de invadir a Península Itálica, os Lomgobardos passaram pela região da Panônia (atualmente corresponde à parte ocidental da Hungria e oriental da Áustria), onde travaram uma guerra com os Gépidas, cujo rei era Cunimundo. Ao vencer a batalha, Albuíno – rei dos Lomgobardos – manda degolar Cunimundo e utiliza sua cabeça como cálice. Não obstante, casa-se com a filha dele, Rosamunda, inclusive ordenando que ela bebesse vinho no crânio de seu pai. Obviamente, o Papa Pelágio II não estava satisfeito com essa situação escandalosa. 

Embora a empreitada junto ao imperador para que ajudasse a defender a Itália não tenha sido bem-sucedida, Gregório permaneceu em Constantinopla por aproximadamente quinze anos. Foi um tempo intelectualmente muito frutífero, tendo escrito seu monumental comentário ao livro de Jó, cuja importância reverbera até hoje, pois é fonte para as reflexões acerca dos pecados capitais e das doenças espirituais.

Posteriormente, regressa à Roma quando a peste chega à cidade. Uma das primeiras vítimas foi Pelágio II e, com isso, o povo e o clero aclamam Gregório como novo Papa, apesar de sua renitência. Contudo, ele não se considerava digno de ocupar o cargo; então, escondeu-se num barril para fugir da cidade numa carroça, mas a população o encontrou e o levou para ser consagrado pontífice. 

Logo após sua eleição, passou a realizar uma série de procissões para afastar a peste bubônica da cidade. Numa delas, ouve os anjos cantando a antífona “Regina Caeli, laetare alleluia. Quia quem meruisti portare, aleluia. Resurrexit, sicut dixit, alleluia”, ao que respondeu “Ora pro nobis Deum, alleluia”. Nesse momento, viu o anjo do Senhor limpando uma espada ensanguentada e colocando-a numa bainha e, a partir disso, a peste cessou. Até hoje há no local, que passou a ser chamado Castel Sant’Angelo (Castelo do Santo Anjo), uma imagem do anjo colocando a espada na bainha. 

Permaneceu na Cátedra de Pedro de 590 a 604, quando faleceu aos 64 anos de idade, num pontificado cujo legado é extraordinário, sendo concomitantemente um grande pastor e doutor, buscando a verdade por meio da luz natural da razão e da luz sobrenatural da fé. Gregório não apenas culturalmente estudou a doutrina da Igreja, mas também contemplativamente viu a Verdade, já que antes de ser enviado à vida pastoral e missionária, foi um monge. 

Realizou reformas litúrgicas que persistem até hoje, como, por exemplo, o momento da missa no rito latino em que se reza o Pai Nosso, logo depois da oração eucarística e antes da fração do pão. Além disso, instituiu e embelezou liturgicamente o canto gregoriano – o nome não é à toa. Até por volta do final do século XIX os bispos recebiam a incumbência de ler a Regula Pastoralis de São Gregório Magno, na qual ensina os sacerdotes a serem pastores de almas.

Ainda, exerceu influência direta na história de diversas nações. Foi determinante para a evangelização dos ingleses, pois mandou seu sucessor no mosteiro – Santo Agostinho de Cantuária – evangelizar o povo anglo, os quais influenciaram na evangelização de holandeses e alemães. 

Resta a nós agradecer à Providência Divina por ter dado à Igreja tamanhos pastores em tempos tão conturbados, tais como São Gregório Magno no século VI, São Domingos e São Francisco de Assis quando a heresia cátara ganhava força, São João Maria Vianney no século XIX e tantos outros que corroboram a afirmação de que a verdadeira história da Igreja é a história dos santos.

Por fim, no capítulo décimo do Evangelho de São Mateus, Jesus ao enviar os discípulos em missão reitera três vezes que “não tenhais medo”, pedindo que confiem na providência divina pois “nenhum deles cai no chão sem que vosso Pai o permita” (Mt 10, 29). Nem sempre as tribulações são um castigo, eventualmente, a depender do estado em que se encontra a alma, podem ser para purificar o amor. 

São Gregório Magno, rogai por nós!

REFERÊNCIAS:

  • São Gregório Magno e a Reconquista da Europa, aula do curso História da Igreja Medieval, disponível em: padrepauloricardo.org 
  • Homilia do Padre Paulo Ricardo do dia 3 de setembro dos anos de 2018, 2019 e 2020, disponível em: padrepauloricardo.org
  • Legenda Áurea – vidas de santos – de Jacopo de Varazze

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