Voltem à fonte, voltem aos Mosteiros!
No dia 11 de julho, a Igreja celebra a festa litúrgica de um grande Santo, patrono da Europa, que sistematizou o modelo de vida monástico e, ainda hoje, contribui com os profundos ensinamentos extraídos de sua Santa Regra: trate-se de São Bento de Núrsia, celebrando-se 1540 anos do seu nascimento.
O título deste artigo foi extraído de uma exortação proferida em uma histórica e luminosa homilia celebrada pelo ex-Prefeito da Congregação para o Culto Divino, o Cardeal Robert Sarah, na Catedral de Nossa Senhora de Chartres ou Notre-Dame de Chartres, França, no dia 21 de maio de 2018. O Cardeal guineense exortava a assembleia a acordar, escolher a Luz e renunciar às trevas, pois a “Luz veio ao mundo e os homens preferiram as trevas”.
Continua o Cardeal: “Olhemos ao nosso redor! A sociedade ocidental decidiu se organizar sem Deus. Ela está agora entregue às luzes cintilantes e enganadoras da sociedade do consumismo, do lucro a qualquer preço, do individualismo sem medida.”. A mensagem subjacente da homilia consiste na necessidade de recuperar o verdadeiro propósito cristão de reconduzir a civilização ocidental rumo à Luz, daí porque o caminho a ser percorrido implica, em primeiro lugar, colocar Deus no centro de nossas vidas.
Neste contexto, o convite do Cardeal Sarah sugere uma entrega total e radical a Cristo, citando a necessidade de retornar aos mosteiros: “Povo da França, povos do Ocidente, vocês não encontrarão a paz e a alegria se não buscarem somente a Deus! Voltem à Fonte! Voltem aos mosteiros! Sim, vocês todos, atrevam-se a passar alguns dias num mosteiro! Neste mundo de tumulto, de feiura e de tristeza, os mosteiros são oásis de beleza e de alegria. Vocês verão que é possível colocar Deus no centro de toda a nossa vida. Vocês experimentarão a alegria que não passa!”
Ora, seguindo a proposta do Cardeal, gostaria de compartilhar a fantástica e inesquecível experiência de passar a Páscoa no Mosteiro Beneditino São João, localizado no município de Campos do Jordão/SP. Fiquei hospedado na casa de retiro Santa Scholastica, espaço de acolhida e hospedaria para visitantes, dentro do Mosteiro, a qual oferece um ambiente agradável e aconchegante.
Tal como sugere o Cardeal Sarah, de fato a estadia em um Mosteiro beneditino é um verdadeiro convite a uma amizade mais profunda com Deus, uma vez que a exterioridade e a agitação do mundo moderno ameaçam a interioridade do homem, afastando-lhe de todos os seus atributos constitutivos, quais sejam, a ordem, a oração e a paz, sendo necessária a volta ao claustro beneditino.
A menção ao claustro beneditino remete a um famoso poema da literatura brasileira, composto por Olavo Bilac e intitulado “A um Poeta”. O eu-lírico instrui outro poeta a compor a obra prima da literatura, deduzindo o passo a passo do seu empreendimento:
Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!
Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica, mas sóbria, como um templo grego.
Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.
Olavo Bilac era um poeta parnasiano e sua preocupação se dirigia à beleza, à sobriedade e à riqueza aparente da beleza como um fim em si mesma, sem, contudo, deixar transparecer o trabalho executado, pois o trabalho do poeta se equipara ao trabalho silencioso de um monge beneditino. Contudo, na ótica parnasiana, a beleza haurida ao final da composição do poema não pode revelar os “andaimes do edifício”, isto é, a expressão final da beleza deve escamotear o sacrifício depositado para revelar a beleza do resultado final, a qual tem um fim em si mesmo.
O poema de Olavo Bilac captou superficialmente o espírito da vida beneditina, que pressupõe um recolhimento interior de vida, pois o retorno ao “aconchego do claustro” deve pressupor a busca pela verdadeira vocação monástica concebida por São Bento em sua Santa Regra, no sentido de compreender a dimensão integral da vivência do Evangelho.
São Bento, ainda muito jovem, optou por uma vida ascética para buscar o caminho para Deus, instalando-se na gruta de Subiaco, vivendo como um eremita. Os monges de Vicovaro escolheram-no como abade. Essa primeira experiência teve como saldo um fracasso e Bento retornou a Subiaco onde discípulos vieram se agrupar em torno dele. Mais tarde, acompanhado de alguns monges, foi se instalar no cimo de Monte Cassino e tornou-se o pai de muitas comunidades de monges, para os quais escreveu a Santa Regra. Esta é, pois, uma síntese completa de outras experiências monásticas anteriores àquela vivida por São Bento, revelando-se um compêndio do Evangelho posto em prática.
A Santa Regra é constituída por 1 prólogo e 73 capítulos. Na versão latina da obra de São Bento, a primeira palavra é “obsculta”, ou seja, escuta, ao passo que a última, “perveniens”, isto é, chegarás. São Bento afirma: “Escuta, filho, os preceitos de mestre, e inclina o ouvido do teu coração; recebe de boa vontade e executa eficazmente o conselho de um bom pai para que voltes, pelo labor de obediência, àquele de quem te afastaste pela desídia da desobediência”. Em uma apertada síntese, o itinerário da vida monástica parte da escuta para voltar a Deus, na medida em que a verdadeira regra de vida concebida para São Bento sempre foi o Evangelho, palavra viva, que permite voltar a Deus, de tal maneira que este retorno pressupõe, antes, uma atitude anterior e necessária de escuta da Palavra viva.
Sem dúvida, da experiência que vivi no mosteiro, penso que o ponto culminante foi a experiência proposta por São Bento no sentido de estar unido a Deus por meio da escuta com o “ouvido do coração”, durante os momentos de oração no ofício divino. Como hóspedes do Mosteiro, participávamos das horas canônicas de oração das vigílias, laudes, hora média e vésperas, todas rezadas e cantadas no coro.
Ao acompanhar as orações, deparei-me com um primeiro choque: a pressa para a leitura das antífonas, salmos e hinos, fato este que revelava uma dificuldade inicial em seguir o ritmo ditado pelo canto do coral. Havia uma determinada entonação a ser obedecida, respeitando-se fielmente a melodia, que, em um determinado, expressava a sublime beleza daquele momento.
A oração coral do Mosteiro representa um verdadeiro tesouro da tradição, permitindo uma experiência transcendente, conforme se pode verificar de um texto extraído e adaptado do site do Mosteiro de Solesmes, consultado no site do Mosteiro do Rio de Janeiro: “Deixa-se o mundo profano no qual estamos mergulhados, para entrar no mundo de Deus, para participar com os anjos da liturgia do Céu. Sem dúvida, a iniciativa vem de Deus, que quis se tornar um entre nós em Jesus Cristo. Assim, na liturgia, o Céu e a terra voltam a se unir. Nossa vida cotidiana, concreta, é, dessa maneira, verdadeiramente santificada pela liturgia.”.
Como verdadeiro Pai e Mestre, São Bento, no capítulo 19 da Santa Regra, nos exorta quanto à correta forma de salmodiar, ensinando que devemos “crer estar em toda a parte a presença divina (…) creiamos nisso principalmente e sem dúvida alguma quando estamos presentes ao ofício divino.”. Ora, neste momento, São Bento denominava o ofício como “Opus Dei”, verdadeira obra de Deus, de sorte que reputo esta a epifania durante a minha vivência no Mosteiro, pois percebia que a Palavra meditada manifestava o verdadeiro amor de Cristo.
As diversas orações escalonadas durante o dia alimentam uma verdadeira intimidade com Cristo jamais experimentada antes. Durante o dia, no mais das vezes, um verso de um salmo me “acompanhava”, tornando mais fecunda e saborosa minha oração pessoal e meditações, das quais eu podia retirar um substrato inesgotável de riqueza. Por outro lado, ao examinar minha consciência, percebia que o ambiente externo e irrequieto de nossa sociedade constitui uma barreira para esta união perfeita a que Deus nos convida no Mosteiro. Em última análise, ao naturalizarmos o ritmo de vida que a sociedade nos impõe, corremos o risco de desprezarmos a riqueza do tesouro inestimável da presença real de Deus no ofício divino e da sua Palavra que nos convida a estar com Ele.
São João Paulo II sintetiza de forma brilhante esta experiência: “E pela meditação tranquila e saborosa — que é verdadeira ruminação espiritual — a palavra de Deus excita nas almas dadas à oração aqueles agudos raios de luz, que iluminam o decurso do dia inteiro. Na verdade, esta é a “oração do coração”, aquela “breve e pura oração” por meio da qual aos divinos impulsos respondemos, e ao mesmo tempo pedimos ao Senhor que nos conceda o inexaurível dom da sua misericórdia.”.
Dessa forma, a experiência monástica não se limita a uma experiência estética, mas revela a transcendente busca para se conformar a Cristo no ofício divino, pois é o próprio Deus quem se nos comunica a sua presença e a sua amizade, confirmando a importância do Mosteiro, enquanto casa de Deus e Escola do Serviço do Senhor, como guia para o retorno de nossa civilização à Luz.
São Paulo VI nos orienta sobre como reaver o domínio e a alegria espiritual de si para o retorno ao verdadeiro claustro beneditino, verdadeira fonte de paz e de encontro com Deus, de modo a nos revelar a atualidade do ideal monástico: “A Igreja precisa ainda hoje desta forma de vida religiosa; o mundo também a necessita (…) Sim, a Igreja e o mundo, por diferentes, mas convergentes razões, precisam circundar-se do seu recinto de solidão e de silêncio, fazendo-se escutar sua encantadora oração (…) São Bento retorna para nos ajudar a recuperar a vida pessoal; aquela vida pessoal, da qual sentimos fome e ânsia, e que o desenvolvimento da vida moderna, a qual se deve o desejo exagerado de estarmos com nós mesmos, sufoca e, por isso, o desperta. ”.
São Bento e Santa Scholastica, rogai por nós!
Fernando Augusto Frank de Almeida Alves
Referências Bibliográficas:
Discurso de São Paulo VI – Dedicação da Basílica Abacial de Montecassino, de 24 de outubro de 1964. – http://www.vatican.va/content/paul-vi/it/homilies/1964/documents/hf_p-vi_hom_19641024_montecassino.html
Carta Apostólica Sanctorum Altrix de São João Paulo II no XV Centenário do nascimento de São Bento, Patrono da Europa, mensageiro da Paz. – http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_letters/1980/documents/hf_jp-ii_apl_11071980_sanctorum-altrix.html
https://www.mosteirodesaobentorio.org.br/
https://www.mosteirosaojoao.org.br/
https://pt.aleteia.org/2018/05/30/historica-e-luminosa-homilia-do-cardeal-sarah-repercute-nas-redes-sociais/A regra de São Bento – Dom Justino – https://www.youtube.com/watch?v=Dzer-DWGppY&t=3744s
Você quer saber mais sobre algum ensinamento da Igreja?
Envie suas dúvidas para revistansb@gmail.com

