Nesta edição do Informativo Nossa Senhora do Brasil, publicamos algumas histórias de pessoas e grupos ligados à nossa vida paroquial. São relatos de trajetórias de vidas salvas pela fé e pela dedicação de paroquianos, que trabalham como voluntários e que são instrumentos de Jesus aqui na Terra.
A Conferência Vicentina da Paróquia N. Sra. do Brasil
Em 24 de julho de 1945 foi fundada a Conferência Vicentina da Paróquia N. Sra. do Brasil. Por muitos anos um grupo de confrades (homens) e consócias (mulheres) atendeu inúmeras famílias em situação de vulnerabilidade, procurando reinseri-las na sociedade através da promoção do ser humano e do trabalho que lhes dá independência para seguirem suas vidas com dignidade e à luz do Evangelho.
Em seguida, as atividades da Conferência foram suspensas durante certo período, devido ao envelhecimento e morte de muitos de seus membros – até que, em 17 de janeiro de 2017, um novo grupo de paroquianos a reativou, com os mesmos objetivos e carismas, e retomou suas atividades atendendo famílias da Comunidade do Sapê, em Osasco, na Grande São Paulo.
Para se tornar membro da família vicentina é necessário cumprir as seguintes etapas: (1) frequentar durante 3 meses as reuniões de um grupo atuante, na condição de visitante; (2) caso se confirme o interesse em se tornar vicentino, o agora aspirante deve fazer o curso da ECAFO – Escola de Capacitação Frédéric Ozanam; (3) enfim, a admissão como confrade ou consócia na Sociedade S. Vicente de Paulo se dá pela proclamação.
Atualmente a Conferência Vicentina da N. Sra. do Brasil é constituída por quatro confrades, cinco consócias e dois aspirantes, sob a liderança de Luciana Xavier. Esse grupo tem se dedicado ao socorro de famílias carentes de nossa periferia, fornecendo-lhes alimentos, roupas, remédios, reparos em moradias, bem como assistência médica, encaminhamento para empregos, orientação profissional, assistência jurídica e programas de geração de renda. Periodicamente visita-se as residências dos assistidos, com o objetivo de apoiá-los material e espiritualmente.
Desde 2017 mais de 30 famílias vieram até nossa Paróquia solicitar ajuda. Até março de 2020 (antes do início da pandemia) a Conferência atendia 12 famílias com visitas regulares e reuniões na Paróquia S. Mateus, próxima à Comunidade do Sapê.
Com a chegada da pandemia, preocupados com a fome que se espalha pelo planeta, os Vicentinos do mundo inteiro foram estimulados a fornecer alimentos a um número maior de famílias. Dessa maneira, além de atenderem essas 12 famílias (chamadas “assistidas”) os vicentinos da NSB, com a ajuda dos Benfeitores do Cor Unum, socorrem hoje dezoito outras famílias (denominadas “socorridas”) oferecendo-lhes cestas básicas. Para a entrega de alimentos, cobertores e leite, seguindo todos os protocolos sanitários, usam o estacionamento da Paróquia S. Mateus, onde o pároco, Pe. Ronaldo, lhes dá uma benção e leva a palavra de Deus.
A seguir, algumas histórias de pessoas que, graças ao incansável trabalho do grupo de Vicentinos da NSB saíram do ciclo da pobreza e abandono e recomeçaram suas vidas com ânimo e esperança de dias melhores.
Histórias comoventes de superação
O secretário de nossa Conferência Vicentina, Paulo Pimentel, nos contou duas histórias incríveis, que bem retratam a capacidade de recuperação de pessoas socialmente marginalizadas, quando lhes dedicamos um pouco de atenção e de apoio humanitário.
Durante nosso bate papo informal, Paulo fez questão de frisar a importância do legado de Frédéric Ozanam (1813-1853), intelectual e ativista católico beatificado pelo papa João Paulo II em 1997, e fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo (inicialmente conhecida por Conferência da Caridade): “a SSVP é um movimento católico de leigos que se dedica, sob o influxo da justiça e da caridade, à realização de iniciativas destinadas a aliviar o sofrimento do próximo, em particular dos social e economicamente mais desfavorecidos, mediante o trabalho coordenado de seus membros”.
Segundo Paulo Pimentel, um vicentino deve ter sempre presente a advertência de Frédéric Ozanam: “cuidado, Vicentinos, para os filhos de seus assistidos não serem assistidos dos seus filhos “.
Cassiana… Vicente de Paulo!
Em novembro de 2017, a Conferência Vicentina da NSB iniciou o atendimento a Cassiana Silva, uma jovem franzina, de aproximadamente 35 anos, mãe de sete filhos (de pais diferentes), dependente química e também filha dependente química. Ela morava na rua com cinco filhos, sendo quatro deles crianças abaixo de 12 anos. Os dois mais velhos, de 17 e 16 anos, moravam na casa de uma tia, na Comunidade do Sapê.
Dentre as providências emergenciais para tirar Cassiana e seus filhos da rua e do ciclo de miséria e penúria, compraram uma casa para abrigá-los, na mesma Comunidade do Sapé, onde já viviam seus outros dois filhos maiores.
Com a ajuda de uma psicóloga vicentina o grupo da NSB elaborou um plano de recuperação para Cassiana e sua família, incentivando-a a buscar trabalho como faxineira e lavadeira. Conseguiram incluí-la no programa Credipaz, para obtenção de crédito solidário, para abrir um micro negócio de venda de lingerie; como pequena empreendedora seu sucesso foi temporário, agravado pela chegada da pandemia. Atualmente Cassiana é ajudada com cestas básicas de alimentos, material de limpeza e leite para as crianças. Cassiana continua com atendimento psiquiátrico.
Uma curiosidade: quando os Vicentinos foram providenciar documentos para ela e seus filhos, logo no início do acolhimento, qual não foi a surpresa quando descobriram que seu nome é Cassiana Vicente de Paulo Silva!
Eliane e seus gêmeos
Eliane nasceu em uma família estruturada. Morava no Alto de Pinheiros, fala bem, tem colegial completo. Seu pai era da Polícia. Casou-se e teve um filho.
Como era gorda, uma amiga a “aconselhou” a cheirar cocaína para emagrecer. Começou a derrocada. Se envolveu com drogas, largou o marido e saiu de casa deixando o filho aos cuidados de sua mãe. Depois de um tempo foi morar com um traficante em uma Comunidade na Zona Sul. Quando descobriu que estava grávida conseguiu dinheiro para fazer o aborto.
A caminho da clínica para abortar passou mal no metrô e foi encaminhada para o Hospital das Clínicas. Após ser examinada, o médico que a atendeu perguntou se ela sabia que estava grávida. Ela respondeu que sim e que estava indo fazer um aborto. O médico então lhe perguntou se ela iria matar duas crianças. Foi quando Eliane percebeu que estava grávida de gêmeos. O choque foi muito grande e a fez cair em si.
Com ajuda de um programa do HC que atendia dependentes químicos, ela se tratou, recuperou-se e abandou as drogas e o companheiro da Comunidade. Voltou a morar com sua mãe e seu filho, já adolescente.
Graças à ação dos Vicentinos, o filho agora adulto, com 27 anos e baixíssima escolaridade, retornou aos estudos e hoje está empregado. Eliane teve acompanhamento de um médico endocrinologista e de uma psicóloga. Após algumas tentativas para abrir micro negócios, fez um curso de manicure, patrocinado pelos Vicentinos e obteve um relativo sucesso. Atualmente vive com dificuldades, mas longe das drogas. Ela diz que o melhor presente que Deus lhe deu foi seus filhos gêmeos terem nascido sem sequelas.
Eliane foi encaminhada para atendimento dos vicentinos pela Diretora da Creche S. Judas Tadeu (que na ocasião era mantida pela Paróquia), pois seus dois gêmeos frequentaram a Creche da Paróquia de S. Judas.
Sem dúvida, esse é um caso de proteção do Anjo da Guarda.
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